segunda-feira, 22 de abril de 2013

ARROZ DE CHINA POBRE


O arroz mais famoso dos pampas gaúcho é o carreteiro, mas tem outro que não é pra menos dentro da culinária tradicional do Rio Grande: É Arroz de China Pobre.
A história não tem relato de sua origem.

É possível entender a partir de sua denominação: China é uma denominação mais educada que o gaúcho dá para prostitutas, raparigas ou mulheres da vida, e pobre, bom... não precisa dizer. Contam os antigos que na revolução farroupilha as chinas não tinham muito para servir aos clientes e, então, o prato mais comum entre elas, pela escassez de recursos, era esse arroz que acabou sendo denominado como o arroz das chinas pobres.
Deixando de lado esse detalhe, podem ter certeza que é uma especiaria e vale apena experimentar.
Loco de especial.

                                                Arroz de China Pobre na panela de ferro.

 
 
 
Ingredientes
Arroz
Linguiça
Alho
Cebola
Salsa
Cebolinha
Sal
Ovos
Farinha
Pimenta
 
                              Modo de Preparo
 
 
Refogar o alho, cebola e a linguiça;
Acrescentar 3 xícaras de arroz, já escorrido, refogar junto com o alho,cebola e a linguiça
até o arroz ficar seco.
Colocar 6 xícaras de água fervidas;
Deixar em fogo brando por mais ou menos 12min;
Deixar cozinhar ao dente;
Quando estiver pronto colocar numa travessa e acrescentar os
ingredientes: salsa, cebolinha, ovos cozidos e
picados.
Ao servir deixar ao gosto: farinha temperada com
os mesmos ingredientes do arroz e pimenta ao prato

quarta-feira, 17 de abril de 2013

O MATE



Mate amargo que se toma numa cuia de porongo por uma bomba de metal. Atribuem-se ao chimarrão propriedades desintoxicantes, particularmente eficazes numa alimentação rica em carnes.
A tradição do chimarrão é antiga. Soldados espanhóis aportaram em Cuba, foram ao México "capturar" os conhecimentos das civilizações Maia e Azteca, e em 1536 chegaram à foz do Rio Paraguay. No local, impressionados com a fertilidade da terra às margens do rio, fundaram a primeira cidade da América Latina, Assunción del Paraguay.
Os desbravadores, nômades por natureza, com saudades de casa e longe de suas mulheres, estavam acostumados a grandes "borracheras" - porres memoráveis que muitas vezes duravam a noite toda. No dia seguinte, acordavam com uma ressaca proporcional. Os soldados observaram que tomando o estranho chá de ervas utilizado pelos índios Guarany, o dia seguinte ficava bem melhor e a ressaca sumia por completo. Assim, o chimarrão começou a ser transportado pelo Rio Grande na garupa dos soldados espanhóis.As margens do Rio Paraguay guardavam uma floresta de taquaras, que eram cortadas pelos soldados na forma de copo. A bomba de chimarrão que se conhece hoje também era feita com um pequeno cano dessas taquaras, com alguns furos na parte inferior e aberta em cima. A mais de 20 anos, os paraguaios tomam chimarrão em qualquer tipo de cuia. "Até em copo de geléia". São os únicos que também têm por tradição tomar o chimarrão frio... O "tererê" paraguaio pode ser tomado com gelo e limão, ou utilizando suco de laranja e limonada no lugar da água.
Na Argentina e no Uruguai a erva é triturada, ao contrário do Brasil, onde é socada.
 Nos países do Prata, a erva é mais forte, amarga, recomendada para quem sofre de problemas no fígado.
O mate pode ser tomado de três maneiras, em relação à companhia: o mate solito (isoladamente); o mate de parceria (uma companheira ou companheiro) e, finalmente, em roda de mate (em grupo).

O MATE SOLITOO homem que não precisa de estímulo maior para matear, que sua vontade; no geral, é o verdadeiro mateador.

O MATE DE PARCERIAA pessoa espera por um ou dois companheiros a fim de motivar o mate, pois não gosta de matear sozinha.

RODA DE MATEÉ na roda de mate que esta tradição assume seu apogeu, agrupando pessoas sem distinção de raça, credo, cor ou posse material (o homem vale pelos seus atos). Irmanados dentro deste clima de respeito, o mate vai integrando os homens numa trança de usos e costumes, que floresce na intimidade gaúcha.
O gaúcho nunca pede um mate, por mais vontade que tenha. Poderá sugeri-lo de forma sutil, esperando que lhe ofereçam. Há um respeito mítico, nas rodas de mate, percebido até por pessoas alheias ao meio, trascendendo ao próprio ato de matear. Introspectivo por excelência, induz o homem a uma busca interior, despertando a auto-análise em relação ao meio. Companheiro calado nos mates solitos, se fez vaqueano deste silêncio, onde se amansam sentimentos para a grande compreensão da vida!
A MÃO DIREITA
Para se receber o mate ou entregar a cuia de mate, deverá ser feito com a mão direita. No caso da mão direita estar ocupada, a pessoa deverá dizer:- Desculpe a mão!Ao que o outro responde:- É a mesma, a do coração.Fora dessa exceção, sempre com a mão direita.

ENCHENDO O MATE
No ato de encher o mate, pega-se a cuia com a mão esquerda e o recipiente com a direita. Após, acomoda-se o recipiente e se troca a cuia de mão para matear ou oferecer o mate, seguindo-se, sempre, pelo lado direito, o lado de laçar.O sentido da volta na roda de mate deverá partir pela direita do cevador ou enchedor de mate.

A ÁGUA PARA PREPARAR O MATE
A temperatura da água para preparar o mate nunca deve estar muito quente, pois pode queimar a erva, dando um gosto desagradável ao mate e lavando rapidamente.

O PIALADOR DE MATE
É o indivíduo que, chegando numa roda de mate, se posiciona de tal modo que a cuia fique a sua esquerda, à frente da pessoa que está mateando, lembrando o campeiro que se posiciona estrategicamente à saída da mangueira!O correto quando se cheganuma roda de mate é ficar antes do mateador, isto é, tendo a pessoa que está mateando a sua direita.

A ÁGUA DO MATE
A água para o mate nunca deverá ser fervida, pois se tornaria pesada, pela perda de oxigênio, transmitindo um sabor diferente ao mateador.O ideal é quando a água apenas chia.

CEVAR COM CACHAÇA
Algumas pessoas quando fecham um mate (ato de preparar o mate), costumam, em lugar de água para inchar a erva, colocar cachaça, pois a cachaça fixa por mais tempo a fortidão da erva-mate, sem deixar o gosto do álcool. Este modo de preparar serve tanto o mate amargo (chimarrão) como para o mate doce.A cachaça é só para iniciar o mate. Uma vez inchada a erva, cospe-se fora a infusão até roncar bem a cuia, esgotando-se comletamente o líquido. Depois desta operação, é só seguir cevando normalmente, com água, o mate.

SÓ O CEVADOR PODE MEXER NO MATE
A menos que se obtenha licença, só o cevador deve arrumar o mate, considerando-se falta de respeito alguém mexer sem permissão. Mesmo que o topete (barranco) esteja se desmanchando ou qualquer outro problema com o mate, devemos entregá-lo ao enchedor ou cevador. Podemos, isto sim, ao devolver a cuia, avisá-lo da ocorrência.O bom cevador, cada vez que recebe a cuia, antes de enchê-la, dá uma ajeitada na bomba, de modo que renove o fluxo de seiva, demonstrando, assim, seu conhecimento na intimidade com o mate.

EM RODA DE MATE
É comum, após o primeiro mate, que sempre é do cevador (o que faz o mate), ter início a rodade mate a partir do mais velho ou de alguém a quem se queira homenagear.Quando já estamos mateando e chega alguém a quem desejamos mostrar deferência especial, é fechado um novo mate em sua homenagem.

O PRIMEIRO MATE
Como já falamos, todo aquele que fecha um mate (faz o mate) deve tomar o primeiro em presença do parceiro ou na roda de mate.Este fato tornou-se tradicional devido a épocas remotas em que o mate serviu de veículo para envenenamentos. Por isso, o ato do mateador tomar o primeiro indica que o mate está em condições de ser tomado.Ainda no caso do primeiro mate, outro motivo que nos chega foi devido aos jesuítas, que atribuindo valores afrodisíacos ao mate, e para evitar que os índios passassem a maior parte do dia mateando, tentando afastá-los do hábito, criaram o mito entre os silvícolas cristianizados que Anhangá Pitã (diabo) estava dentro do mate. Mas não foram bem sucedidos os jesuítas e o hábito salutar sobrepujou o temor que lhes fora impresso. Por isso, toda vez que o indígena ia tomar um mate em presença dos outros, tomava o primeiro mate como demonstração que Anhangá Pitã não se encontrava no mate.

RONCAR CUIA
Uma vez servido o mate, deve ser tomado todo, até esgotá
-lo, fazendo roncar a cuia.

CUCA DA FRONTEIRA

                                                              CUCA, uma das delicias da fronteira, com um café de chaleira, a beira de um fogão a lenha.
Uma cuca pra come tomando um café de chaleira na beira do fogo de tardizita neste inverno...hummm...tá loco... Ingredientes Massa 3 xícaras de farinha de trigo 1 xícara de açúcar 1 colher de chá rasa de sal 1 colher de sopa rasa de fermento (para pão) 1 ovo 1 colher de sopa de manteiga leite ou água para dar o ponto raspas de casca de limão Farofa 1/2 xícara de farinha de trigo 1/2 xícara de (chá) de farinha de açucar 1 colher de (sopa) de manteiga Canela a gosto Modo de Preparo - Misture todos os ingredientes e amasse até dar ponto - Deixe crescer até dobrar de volume - Misture os ingredientes da farofa numa vasilha - Reserve - Coloque a massa em uma forma de pão - Coloque a farofa por cima - Leve ao forno pré - aquecido por cerca de 30 minutos até crescer e dourar levemente O segredo da cuca é crescer 3 vezes: a esponja, a massa e já colocada na forma. Ela irá crescer ainda mais no cozimento. Por isto, use assadeira grande! 

FEIJÃO CUIUDO

Com a chegada do frio,vamos inventando ou procurando receitas.
O inverno pede comida quente mas que não percam os sabores do sul.
Tchê, ontem tinha uma sobra de feijão, já sem carne, sem linguiça, enfim só os grão...sempre faço feijão mexido quando tenho uma sobra assim, mas ontem pensei em deixa ele cuiudo porque tava um pouco frio aqui pros lado da fronteira da paz. Então segue pra vocês o que eu fiz... - Sobra de feijão cozido - 1/2 cebola cortada em 4 - 1/2 pimentão verde cortado grande - 1/2 pimentão vermelho cortado grande - 200 gr de peito de frango cortado em cubo grande grelhado - 200 gr de carne bovina de primeira cortada em cubo grande grelhada - 100 gr de coração de frango grelhado - 100 gr de calabresa em rodela Coloca o feijão pra esquenta em uma panela, depois de ferver acrescente todos ingredientes já grelhados e misturados. Você pode grelhar tudo em uma frigideira grande e funda ou em uma chapa como se faz um entrevero.
É simples e é pra encrementa o feijão e olha como ficou...


O ANJO DA VITÓRIA

                                     O Anjo da Vitória
Foi depois da batalha de Ituzaingo, no passo do Rosário, pra lá de São Gabriel, do outro lado do banhadode Inhatium. Vancê não sabe o que é inhatium?
Ë mosquito: bem posto nome!
Banhado de Inhatium. .. Virge’ Nossa Senhora!... mosquito, aí, fumaceia, no ar!
Eu era gurizote: teria, o muito, uns dez anos; e andava na companha do meu padrinho, que era capitão, para carregar os peçuelos e os avios do chimarrão.
As cousas da peleia não sei, porque era menino e não guardava as conversas dos grandes; o que eu queria era haraganear; mas, se bem me lembro, o meu padrinho dizia que nós estávamos mal acampados, e estransilhados, pensando culatrear o inimigo, mas que este é que nos estava nos garrões; não havia bombeiros nem ordem, que o exército vinha num berzabum, e que o general que mandava tudo, que era um tal Barbacena, não passava de um presilha, que por andar um dia a cavalo já tinha que tomar banhos de salmoura e esfregar as assaduras com sebo...
O meu padrinho era um gaúcho mui sorro e acostumado na guerra, desde o tempo das Missões, e que mesmo dormindo estava com meio ouvido, escutando, e meio olho, vendo...; mesmo ressonando não desgrudava pelo menos dois dedos dos copos da serpentina...
Num escurecer, enquanto pelo acampamento os soldados carneavam e outros tocavam viola e cantavam, ou dormiam ou chalravam, o que sei é que nesse escurecer o meu padrinho mandou pegar os nossos cavalos; e encilhamos até a cincha; e depois nos deitamos nos pelegos, com os pingos pela rédea, maneados: ele, armado, mateando; eu, enroscadito no meu bichará, e o ordenança, que era um chiru ombrudo, chamado Hilarião, pitando.
Eu, como criança, peguei logo a cochilar.
Amigo! Vancê creia: o coração às vezes, trepa, dentro da gente, o mesmo que jaguatirica por uma árvore acima!...
Lá pelas tantas, ouviu-se cornetas e clarins e rufos de caixa...; mas o som dos toques andava ainda galo-peando dentro do silêncio da noite quando desabou em cima de nós a castelhanada, a gritos, e já nos foi fumegando bala e bala!...
Numa arrancada dessas é que o coração trepa, dentro da gente, como gato...
— Desmaneia e monta! gritou o meu padrinho; ele que falava, eu e o chiru que já estávamos enforquilhados nas ganas.
E por entre as barracas e ramadas; por entre os fogões meio apagados, onde ainda havia fincados espetos com restos de churrascos; por entre as carretas e as pontas de bois mansos e lotes de reiúnos; no fusco-fusco da madrugada, com uma cerraçãozita o quanto-quanto; por entre toques e ordens e chamados, e a choradeira do chinaredo e o vozerio do comércio, já no cheiro da pólvora e em cima dos primeiros feridos, formou-se o entrevero dos atacantes e dos dormilões.
E cantou o ferro… e choveu bala!...
O meu padrinho levantou na rédea o azulego: e de espada em punho, o chiru, com uma lança de meia-lua — e eu entre os dois, enroscadito no meu bichará — nos botamos ao grosso do redemoinho, para abrir caminho para o quartel-general do dito Barbacena.
Como lá chegamos, não sei.
A espada do meu padrinho estava torcida como um cipó, e vermelha, e o azulego tinha uns quantos lanhos na anca; o Hilarião tinha um corte de cima a baixo da japona, e eu levei um lançaço, que por sorte pegou no malote do poncho.
Mas, varamos. 
No quartel do Barbacena ninguém se entendia.
45 -A oficialada espumava, de raiva, e um cutuba, baixote, já velho, botava e tirava o boné e metia as unhas na calva, furioso, de ralar sangue!...
Esse, era um tal general Abreu... um tal general José de Abreu, valente como as armas, guapo como um leão… que a gauchada daquele tempo — e que era torenada macota! — bautizou e chamava de — Anjo da Vitória!
Esse, o cavalo dele não dava de rédea para trás, não! Esse, quando havia fome, apertava o cinto, com os outros e ria-se!
Esse, dormia como quero-quero, farejava como cervo e rastreava como índio...; esse, quando carregava, era como um ventarrão, abrindo claros num matagal.
Com esse.. . castelhano se desguaritava por essas coxilhas o mesmo que bandada de nhandu, corrida a tiro de bolas!...
Era o Anjo da Vitória, esse! 
Daí a pouco apareceu um outro oficial, mocetão bonito, que era major. Este chamava-se Bento Gonçalves, que depois foi meu general, nos Farrapos.
Os dois se conversaram, apalavraram os outros e tudo montou e tocou pra rumos diferentes.
No acampamento estrondeava a briga.
Já tinha amanhecido. 
Eu andava colado ao meu padrinho, como carrapato em costela de novilho. Por onde ele andou, andei eu; passou, passei; carregava, eu carregava; fazia cara-volta, eu também.
Naquelas correrias, o meu bicharazito, às vezes, enchia-se de vento, e voava, batia aberto, que nem uma bandeira-cinzenta...
O major Bento Gonçalves formando a cavalaria, agüentava como um taura as cargas do inimigo, para ir entretendo, e dar tempo à nossa gente de quadrar-se, unida.
Os castelhanos, mui ardilosos, logo que aquentou o sol tocaram fogo nos macegais onde estava o carretame; o vento ajudou, e enquanto eles carcheavam a seu gosto, uma fumaça braba tapou tudo, do nosso lado!... 
Então o general Abreu no alto do coxilhão formou os seus esquadrões: o meu padrinho comandava um deles.
Formou, fez uma fala à gente e carregou, ele, na frente, montado num tordilho salino, ressolhador.
Oh! velho temerário! Firme nos estribos, com o boné levantado sobre o cocuruto da cabeça, a espada apontando como um dedo, faiscando, o velhito ponteou aquela tormenta, que se despenhou pelo lançante abaixo e afundou-se e entranhou-se na massa cerrada do inimigo, como uma cunha de nhanduvai abrindo em dois um moirão grosso de guajuvira...
E deixando uma estiva de estrompados, de mortos, de atarantados, de feridos e de
morrentes — como quando rufa um rodeio xucro... vancê já viu? — varou para o outro lado, mandou fazer —alto, cara-volta! — e mal que reformou os esquadrões, os homens chalrando e rindo, a cavalhada, de venta aberta,bufando ao faro do sangue e trocando orelha, pelo alarido, o velho já se bancou outra vez na testa, gritou —Viva o Imperador! — e mandou — Carrega! 
E a tormenta da valentia rolou, outra vez, sobre o campo.
Mas nesta hora maldita, a fumaça maldita nos rodeava e cegava; e mal íamos dando lance à carga — eu, folheirito, abanando no mais o meu bichará pra o Hilarião — rebentou na vanguarda e num flanco a fuzilaria, e vieram as baionetas... e uma colubrina, que nos tiroteavam donde não podia ser!...
A nossa cavalaria se enrodilhou toda, fazendo uma enrascada de mil diabos… e enquanto o tiroteio nos estraçalhava, que os ginetes e os cavalos caíam, varados, e que, por fim, os próprios esquadrões já iam rusgando uns com os outros — aí, amigo, andei eu às pechadas!—enquanto isso... veio uma rajada forte de vento, que varreu a fumaça, limpou a vista de todos e mostrou que era a nossa infantaria que nos tinha feito aquela desgraça...
46 
  Então, por cima dos mortos e dos feridos houve um silêncio grande, de raiva e de pena… como de quem pede perdão, calado… ou de quem chora de saudade, baixinho... 
  Lá longe, os castelhanos, enganados, tocaram a retirada. O nosso quartel-general também tocou a retirada.
Pegou a debandada; dispersava-se a gente por todos os lados, aos punhados, botando fora as pederneiras, as patronas; muitos sotretas fugiram de cambulhada com o chinerio...
Metades de batalhões arrinconavam-se, outras encordoavam marcha.
Os ajudantes galopavam conduzindo ordens… mas parecia que toda a força ia fugindo duma batalha perdida,que não era, porque tudo aquilo era da indisciplina, somentes.
  O Anjo da Vitória lá ficou, onde era a frente dos seus esquadrões, crivado de balas, morto, e ainda segurando a espada, agora quebrada. 
  Campeei o meu padrinho: morto, também, caído ao lado do azulego, arrebentado nas paletas por um tiro de peça; ali junto, apertando ainda a lança, toda lascada, estrebuchava o Hilarião, sem dar acordo, aiando, só aiando...
Deitado sobre o pescoço do cavalo, comecei a chorar.
Peguei a chamar:
— Padrinho! padrinho!...
— Hilarião! Meu padrinho!...
Apeei-me, vim me chegando e chamando — padrinho!… padrinho!… e tomei-lhe a bênção, na mão, já fria…; puxei na manga do chiru, que já nem bulia...
Sem querer fiquei vendo as forças que iam-se movendo e se distanciando.., e num tirão, quando ia montar de novo, sem saber pra quê... foi que vi que estava sozinho, abandonado, gaudério e gaúcho, sem ninguém pra me cuidar!...
   Foi então, que, sem saber como, já de a cavalo, enquanto sem eu sentir as lágrimas caíam-me e rolavam sobre o bichará, os olhos se me plantaram sobre o tordilho salino... sobre o coto da espada... sobre um boné galoado...  
E o cabelo me cresceu e fiquei de choro parado...e ouvi, patentemente, ouvi bem ouvido, o velho macota, o Anjo da Vitória, morto como estava, gritar ainda e forte.
— Viva o Imperador! Carrega!  O meu bicharazito se empantufou de vento, desdobrou-se, batendo como umas asas... o mancarrão bufou, recuando, assustado… e quando dei por mim, andava enancado num lote de fujões...
Comi do ruim...
 Vê vancê que eu era guri e já corria mundo...

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