sábado, 4 de maio de 2013



Artigos de Fé do Gaúcho:
 
 
Muita gente anda no mundo sem saber pra quê: vivem porque vêem os outros viverem.
Alguns aprendem à sua custa, quase sempre já tarde pra um proveito melhor.
Vou ensinar-lhe o que os doutores nunca hão de ensinar-lhe por mais que queimem as pestanas deletreando nos seus livrões. Anote na sua livreta:
  1. Não cries guaxo: mas cria perto do teu olhar o potrilho pro teu andar.
  2. Doma tu mesmo o teu bagual: não enfrenes na lua nova, que fica babão; não arrendes na miguante, que te sai lerdo.
  3. Não guasqueies sem precisão nem grites sem ocasião: e sempre que puderes passa-lhe a mão.
  4. Se és maturrango e chasque de namorado, mancas o teu cavalo, mas chegas; se fores chasque de vida ou morte, matas o teu cavalo e talvez não chegues.
  5. A maior pressa é a que se faz devagar.
  6. Se tens viajada larga não faças pular o teu cavalo; sai ao tranco até o primeiro suor secar; depois ao trote até o segundo; dá-lhe um alce sem terceiro e terás cavalo para o dia inteiro.
  7. Se queres engordar o teu cavalo tira-lhe um pêlo da testa todas as vezes da ração.
  8. Fala ao teu cavalo como se fosse a gente.
  9. Não te fies em tobiano, nem bragado, nem melado; pra água, tordilho; pra muito, tapado; mas pra tudo, tostado.
  10. Se topares um andante com os anelos às costas, pergunta-lhe - onde ficou o baio?...
  11. Mulher, arma e cavalo do andar, nada de emprestar.
  12. Mulher, de bom gênio; faca, de bom corte; cavalo de boa boca; onça, de bom peso.
  13. Mulher sardenta e cavalo passarinheiro... alerta, companheiro!...
  14. Se correres eguada xucra, grita; mas com os homens, apresilha a língua.
  15. Quando dois brincam de mão, o diabo cospe vermelho...
  16. Cavalo de olho de porco, cachorro calado e homem de fala fina... sempre de relancina...
  17. Não te apotres, que domadores não faltam...
  18. Na guerra não há esse que nunca ouviu as esporas cantarem de grilo...
  19. Teima, mas não apostes; recebe, e depois assenta; assenta, e depois paga...
  20. Quando 'stiveres pra embrabecer, conta três vezes os botões da tua roupa...
  21. Quando falares com homem, olha-lhe para os olhos, quando falares com mulher, olha-lhe para a boca... e saberás como te haver...
Que foi?
Ah! quebrou-se a ponta do lápis?
Amanhã escrevo o resto: olhe que dá para encher um par de tarcas!...

quarta-feira, 1 de maio de 2013

LENDA



                                           João-de-barro
 
Contam os índios que, há muito tempo, numa tribo do sul do Brasil, um jovem se apaixonou por uma moça de grande beleza. Melhor dizendo: apaixonaram-se. Jaebé, o moço, foi pedi-la em casamento. O pai dela perguntou:
- Que provas podes dar de sua força para pretender a mão da moça mais formosa da tribo?
- As provas do meu amor! - respondeu o jovem.
O velho gostou da resposta mas achou o jovem atrevido. Então disse:
- O último pretendente de minha fila falou que ficaria cinco dias em jejum e morreu no quarto dia.
- Eu digo que ficarei nove dias em jejum e não morrerei.
Toda a tribo se espantou com a coragem do jovem apaixonado. O velho ordenou que se desse início à prova.
Enrolaram o rapaz num pesado couro de anta e ficaram dia e noite vigiando para que ele não saísse nem fosse alimentado. A jovem apaixonada chorou e implorou à deusa Lua que o mantivesse vivo para seu amor. O tempo foi passando. Certa manhã, a filha pediu ao pai:
- Já se passaram cinco dias. Não o deixe morrer.
O velho respondeu:
- Ele é arrogante. Falou nas forças do amor. Vamos ver o que acontece.
E esperou até até a última hora do novo dia. Então ordenou:
- Vamos ver o que resta do arrogante Jaebé.
Quando abriram o couro da anta, Jaebé saltou ligeiro. Seu olhos brilharam, seu sorriso tinha uma luz mágica. Sua pele estava limpa e cheirava a perfume de amêndoa. Todos se espantaram. E ficaram mais espantados ainda quando o jovem, ao ver sua amada, se pôs a cantar como um pássaro enquanto seu corpo, aos poucos, se transformava num corpo de pássaro!
E exatamente naquele momento, os raios do luar tocaram a jovem apaixonada, que também se viu transformada em um pássaro. E, então, ela saiu voando atrás de Jaebé, que a chamava para a floresta onde desapareceu para sempre
Contam os índios que foi assim que nasceu o pássaro joão-de-barro.
A prova do grande amor que uniu esses dois jovens está no cuidado com que constroem sua casa e protegem os filhotes. E os homens amam o joão-de-barro porque lembram da força de Jaebé, uma força que vinha do amor e foi maior que a morte.                                       

ESTÂNCIA



                                            Estância         
"Estância" quer dizer "lugar de estar", como as estâncias hidrominerais, tão populares, hoje. Mas é também o lugar onde se cria gado para vender, ou seja, trata-se de uma empresa comercial.
Foi o padre jesuíta quem criou a estância gaúcha. Preocupado com a crise de fome que assolava os Povos, em 1634 o Padre Cristóbal de Mendonza trouxe mil cabeças vacuns desde a Argentina, gado esse que foi distribuído em "estâncias" para o abastecimento dos Povos. Alguns ficavam distantes das Missões, como a de Santa Tecla, hoje no município de Bagé. Para cuidar das estâncias, os jesuítas treinaram a cavalo índios "vaqueros", que logo iriam se somar aquele denso caldo humano do qual vai brotar o Gaúcho.
Expulsos os jesuítas, muito gado ficou por aqui e o branco - espanhol ou português - foi se adonando de tudo, organizando as suas próprias estâncias. E já registrando "marca" (que era enorme) e "sinal" (cortes específicos nas orelhas dos animais), como persiste até hoje.
Essas primeiras estâncias tinham como limites os meramente naturais - rios, montes, matos - mas cada um sabia o que era seu e até uma ninhada de tatus assinalados era respeitada escrupulosamente pelos vizinhos... Ademais, os jesuítas muitas vezes mandavam os índios escavar extensos valos, para delimitar áreas de campo, como os que existem ainda hoje na estância Guabijutujá, em Tupanciretã. Depois, com os escravos, vieram as cercas de pedra, existentes ainda hoje, que os serranos chamam de "taipa". Na metade do século XIX aparece a cerca de arame, fazendo a divisa de potreiros, invernadas e postos.
A estância gaúcha tradicional se compõe das Casas, onde mora o proprietário com sua família, em cujos cômodos gente estranha não põe os pés, a não ser a criadagem "de dentro". O galpão, ou galpões, é exclusividade da peonada, onde cada peão em o seu catre, tarimba ou cama (hoje em dia, beliche) e aonde sempre arde um fogo-de-chão para a roda do mate ou algum churrasquito meio galopeado, quem sabe até de charque. O galpão é um reduto masculino. Mulheres que nasceram e se criaram nas Casas da estância morrem de velhas sem conhecer o interior do galpão...
A Casa do Capataz é onde este vive com a família, a meio termo entre as Casas da estância e os galpões. As mangueiras, que podem ser de pedra, de arame, de tábua ou de varejão (troncos) e que incluem a mangueira grande, o curro (ou seringa), o tronco e os bretes, são os currais para encerrar o gado em determinados trabalhos. E, quase sempre, o banheiro, que é grande para o gado (vacuns) e pequeno para o rebanho (ovinos), onde se banham os animais com remédios
contra a sarna, o carrapato, etc...

do galpão, o piquete, onde se soltam os animais de trabalho ou do "munício" (os que vão ser abatidos para o consumo da estância). Depois, as invernadas, quase todas com nome: Invernada da Tapera, do Coqueiro, do Cerro, doValo. Nessas invernadas se cuida do gado e numa delas está o parador do rodeio, ponto de reunião da animalada para trabalhos especiais, como aparte e coisas assim.
Longe das Casas, os postos, que só existem nas estâncias grandes. São o que o nome diz, cuidados por um Posteiro, que mora num rancho com a família. Junto aos matos, ou rio, vive algum Agregado, gente amiga do proprietário que obteve licença para erguer um rancho nos campos deste e tem alguma vaquinha de leite, uma hortinha, galinhas e porcos.
Hortas e lavouras não são comuns, ou fartas, na estância. O gaúcho sempre foi um comedor de carne. Planta, quando muito, alguma batata-doce, milho, abóbora e melancia. E só.
O pessoal da estância é o Patrão (e sua família), a gente das Casas (a criadagem, inclusive a cozinheira), o Capataz (e sua família), a peonada, os posteiros e agregados. De primeiro havia também o Maiodormo (administrador) e o Sota-Capataz (logo abaixo do capataz na hierarquia campeira).
Há trabalhadores especializados que a estância tem ou não. Muitas vezes suas tarefas são deferidas à peonada. São eles: carreteiro, domador, alambrador, tropeiro, peão caseiro ou peão patieiro, poceiro, compositor, carroceiro, lavoureiro, chacareiro, guasqueiro ou trançador. Quando não há alguém habilitado para esses trabalhos, na estância, chama-se alguém. O peão comum é o mensual e o contratado por jornada é o "peão por dia".

TUMBEIRO


                                   Tumbeiro 
Antigamente, era comum aparecer numa estância um gaúcho com intenção de descansar no galpão, por uma temporada, enquanto seu cavalo engordasse um pouco, solto em uma invernada.
A esse tipo de gaúcho dava-se o nome de tumbeiro.
  Eram homens de bons antecedentes e de boa conduta, amadurecidos na luta pela vida, talvez infelizes em seus antigos amores. Vítimas do destino, viviam sós. Suas posses resumiam-se no cavalo encalhado.
Gozando da vida livre, cortavam campos e estradas afora, passando de pago em pago com a esperança e a ilusão de ainda fazerem querência. Eram conhecidos dos peões ou do próprio patrão. Acertado com o patrão e com licença de invernar o cavalo, o tumbeiro valia-se do aconchego do galpão por um ou dois meses. Não assumia responsabilidade nos trabalhos cotidianos da estãncia, nem era remunerado.
A troco da hospedagem fazia serviços gratuitos, cocho, ou cancela. Fazia cabo para machado, sovava couro cru ou lonqueava para fazerem cordas. Além disso, ajudava nos rodeios, banhos de gado ou resoluta. O patrão aceitava de bom grado, porque nada tinha que desembolsar, só a comida. Mas, naqueles tempos, nas estâncias, a despesa com o sustento nem era levada em conta.
Findo o prazo estipulado, o tumbeiro pedia que trouxessem seu cavalo da invernada. Metia-no no palanque por alguns dias, para adelgaçar. Depois, cortava-lhe os cascos, aparava a cola pelo machinho e emparelhava o toso da crina. No dia da partida, encalhava o pingo com toda a pachorra. Ponche emalado, cola atada, mala de garupa embaixo dos pelegos com uma muda de roupa, laço nos tentos e pala por cima dos arreios com ambas pontas caídas, uma de cada lado.
Depois, já metido, após um banho na sanga, em roupas domingueiras, ia despedir-se do patrão, da família e demais serviçais da casa. Feitos os cumprimentos de praxe, de chapéu na mão o vivente, já mais familiarizado com o patrão, arriscava um gracejo: "Desculpe alguma brincadeira de mau gosto".
Já de chapéu posto, o gaúcho encaminhava-se para o palanque. Desatava o cabresto, colocando parte dele embaixo dos pelegos, emparelhava as rédeas e, rápido, pondo o pé no estribo, alçava a perna, enforquilhando-se galhardamente nos arreios e saía a trote chasqueiro. Na estância ficavam comentando que iriam sentir um vazio com a ausência do tumbeiro. Era guapo, alegre e serviçal.
Homem para o que desse e viesse. O próprio patrão era do parecer que o gaúcho permanecesse por mais tempo em seu galpão. Caramba, gente boa nunca tá demais em uma casa! E, além disso, é como diz o ditado: "Onde come um, comem dois."
Mas o tumbeiro parecia marcado pelo destino. Tinha de cumprir a missão de viver como um índio vago. E, talvez, morrer com a sina do cavalo: velho e solteiro.

CAFÉ DE CHALEIRA

Como surgiu o Café de Chaleira.

                           Quatro gaúchos, desde a madrugada, troteavam estrada afora com um lote de cavalos por diante. Às nove horas acamparam junto a uma sanga, onde havia algumas árvores, para tomarem café e mudarem de cavalo.

Improvisaram uma forma contra um aramado e pegaram os cavalos para muda. Fizeram fogo e puseram as chicolateiras com água para esquentar. Depois, desencilharam os montados, tirando das malas de garupa o café, as bolachas e o açúcar.

Naquele tempo o café era composto, isto é, com açúcar dava uma tintura preta com um forte e agradável cheiro. Em geral, os tropeiros costumavam dividir as obrigações do fogão entre si. A um tocava fazer café, outro era o assador de carne; a um terceiro cabia fazer e encher o mate, a outro, a responsabilidade de juntar lenha; desta maneira tornava-se fácil e até mesmo divertido o trabalho.

O encarregado de fazer café naquela manhã, assim que ferveu uma das chicolateiras, a retirou do fogo e despejou dentro dela duas colheres de café em pó. Mexeu-o bem com a ponta da faca até dissolver todo; depois tornou a pôr a chicolateira no fogo. Quando levantou nova fervura, deixou que transbordasse um pouco do líquido pela beira da vasilha. Em seguida, retirou-a do fogo e meteu um tição aceso dentro do café, que provocou nova ebulição. Ali o manteve por segundos.

Isso feito, com as costas da faca, deu algumas pancadinhas por fora, na chicolateira. Estava pronto o café. Quando não há tição, por exemplo, em fogo de gravetos, ou em zona que existe lenha e o fogo é feito com corunilha, isto é, esterco seco de gado, nestes casos, pondo água fria na fervura do café, ajuda a sentar a borra.

Feito o café em chicolateiras ou cambonas, ficava à disposição dos tropeiros. Estes serviam-se despejando o café em seus canecos alouçados ou guampas onde botavam açúcar a seu contento.

Depois de servidos, com uma bolacha na mão e o copo de café na outra, sentavam nos arreios ou nos pelegos dobrados, às vezes colocados em cima de uma caveira de vaca, já limpa pelo tempo, ou de alguma pedra, fazendo às vezes de banco. Alguns preferiam ficar acocorados nos "garrões", como é hábito entre nosso homem do campo, e, assim acomodados, tomavam tranqüilamente, o café da manhã.

Finda esta ligeira refeição, lavavam os copos e guardavam na mala de garupa o açúcar, bolacha e o café em pó. A sobra do café nas cambonas era posto fora e as vasilhas bem lavadas na sanga. Estas mesmas chicolateiras ou cambonas serviam para, ao meio-dia, aquentar a água para o amargo, como também para preparar a salmoura para o assado. Levantando o acampamento, os tropeiros seguiam a trote chasqueiro, estrada afora, pitando um crioulo.

Os gaúchos viajavam dias, fazendo 10 a 15 léguas diárias sem se aborrecerem. Nem se davam conta do tempo perdido nestas jornadas. Para eles a questão do tempo era indiferente; depois de um dia vinha outro; o importante, sim, era o serviço que estavam incumbidos de fazer.